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O caso Galileu

 

Por Joaquim Blessmann

Afinal, Galileu foi condenado pela Inquisição por defender que a Terra gira em torno do Sol? Copérnico foi discípulo de Galileu? Galileu morreu queimado na Idade Média? Muitas pessoas acham que conhecem a história do processo de Galileu pela Inquisição, mas conhecem apenas mitos. É preciso inserir-se no contexto em que o caso se desenvolveu para formar uma idéia clara do assunto.

 

1. O MITO

 

Três séculos e meio de uma publicidade distorcida e laicista fizeram nascer o mito de que Galileu foi um “mártir da ciência e da liberdade de pensamento e a Igreja a costumeira inimiga da liberdade e do progresso humano”, comenta Cintra1. Também transcrevemos o seguinte trecho, retirado de obra de Massara: “Não se tratou de um conflito entre ciência e religião, entre razão e fé, como uma certa literatura laica, claramente interessada, tem feito crer; mas de uma crise interna do organismo eclesiástico”2. Aliás, essa não é a única distorção histórica; há muitas. Monumental, é por exemplo, aquela que apresenta a Idade Média como uma época de obscurantismo e estagnação, o que não corresponde à realidade. Parece haver uma tendência de cada época a denegrir a que veio imediatamente antes. Pense-se, por exemplo, na Renascença. Ou, atualmente, a atitude de muitos católicos, com suas críticas por vezes contundentes à Igreja de antes do Concílio Vaticano II.

Retrato de Galileu Galilei, de Justus Sustermans (1597-1681), Palazzo Pitti, Florença.

Parece que se baseiam em uma afirmação de Cristo, convenientemente deturpada: “Eu estarei convosco até a consumação dos séculos, porém só a partir do Concílio Vaticano II...”

A seguir, reproduziremos afirmações errôneas sobre o caso Galileu, que conseguimos coletar. Algumas delas serão refutadas logo após serem enunciadas. As demais, no decorrer deste trabalho.

– “Galileu foi condenado na Idade Média”. A Idade Média vai até meados do século XV. Ora, Galileu nasceu em 1564, ou seja, cerca de um século após o seu término.

– “Galileu foi condenado por dizer que a Terra era redonda”. Ora, já na antiga Grécia isto era admitido por muitos. Por exemplo, Pitágoras (século VI a.C.) e seus discípulos falavam da esfericidade da Terra, da Lua e do Sol, bem como da rotação da Terra. Na Europa, a esfericidade da Terra já tinha defensores quatro séculos antes de Galileu. Uma prova concreta tinha sido dada pela expedição de circunavegação da Terra, comandada por Fernão de Magalhães, em 1521.

– “Galileu teve Copérnico como discípulo”. Copérnico faleceu em 1543 e Galileu nasceu 21 anos depois, em 1564.

– “Galileu foi o autor da teoria heliocêntrica”. O sistema heliocêntrico deve-se a Aristarco de Samos, no século III a.C., cerca de 1.900 anos antes de Galileu publicar e defender suas concepções astronômicas.

– “Galileu foi condenado porque defendia o sistema heliocêntrico”. Não, ele foi condenado pelo modo como o defendia.

Outras afirmações errôneas, que tentaremos esclarecer neste trabalho, são as seguintes: Galileu foi torturado, cegado, aprisionado numa masmorra, queimado vivo, condenado por heresia, etc.

Se quisermos analisar corretamente, e com a máxima isenção de ânimo possível, fatos ocorridos em outra época, é necessário que nos ponhamos a pensar com a mentalidade, os costumes e, importante, com os conhecimentos e o “senso comum” daquela época. Por isto, o capítulo “O Ambiente”.

2. O AMBIENTE

2.1. A Filosofia

Eram dois os filósofos que preponderavam no pensamento da época: (a) Aristóteles e (b) São Tomás de Aquino.

a) Aristóteles partia da observação dos fatos naturais, e a partir daí raciocinava e chegava a um conjunto de princípios gerais que permitissem a compreensão do mundo material. Adota a astronomia geocêntrica, com a Terra, esférica e imóvel, no centro do universo. No mundo celeste, separado da terra pela esfera lunar, reina a perfeição. Na Terra, a imperfeição, com a geração, alteração e corrupção dos corpos, formados por quatro elementos básicos: terra, água, ar e fogo.

Antes de Galileu, na Idade Média, muitos filósofos e teólogos admitiam as idéias físicoastronômicas de Aristóteles, porém sem vinculá-las diretamente à Filosofia. Infelizmente, os aristotélicos da Renascença confundiram Filosofia e ciência.

b) Na Suma Teológica, São Tomás de Aquino deixa bem claro que a realidade física, o fenômeno observado, é uma coisa; e outra são as teorias científicas que tentam explicá-lo: “Uma teoria deve salvar as aparências sensíveis” (isto é, deve estar de acordo com o que aparece aos sentidos, com a realidade física). “Isto, entretanto, não constitui uma prova suficiente e decisiva, porque talvez pudéssemos salvar as aparências sensíveis com uma teoria diferente e mais simples”.

Em outras palavras, uma teoria científica não pretende corresponder à realidade, mas apenas explicá-la. Exemplifiquemos:

– A teoria do contínuo, na engenharia. Admite-se, na engenharia, que a matéria é contínua, sem falhas, fissuras, vazios, poros, espaços entres cristais ou moléculas. É mais do que evidente que isto não corresponde à realidade. Mas as teorias baseadas neste postulado explicam satisfatoriamente o comportamento dos materiais e facilitam enormemente os cálculos, quer se trate de uma ponte, torre, barragem ou outra estrutura qualquer, quer se trate do movimento e de forças existentes nos líquidos e gases, tais como: sustentação de um avião, bolas com “efeito” (futebol, tênis, etc.) e mesmo no movimento do sangue nas veias e artérias, etc.

– Isaac Newton: “Tudo se passa como se a matéria atraísse a matéria na razão direta das massas e na razão inversa dos quadrados das distâncias” (gravitação universal). Note-se a modéstia do verdadeiro cientista. Não afirma, categórico: “a matéria atrai a matéria ...”, mas, modestamente, sugere que “tudo se passa como se ...”

– Owen Gingerich, astrônomo de Harvard: “Os átomos, como os imaginamos, não podem ser comprovados de um modo absoluto. O máximo que podemos dizer, é que o universo age como se fosse feito de átomos”3. Novamente, um modesto “como se”, indicando que se pretende explicar a realidade, sem a pretensão de afirmar que é assim e não pode ser diferente.

- O mesmo vale para o mundo psíquico: uma teoria pode explicar o comportamento humano, mas nada assegura que ela dê a razão real deste comportamento. E aqui penso nas teorias de Freud e de outros, conflitantes entre elas; cada autor rejeita explicações diferentes da sua, a qual, no seu entender, exprime a própria realidade.

 
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