Doutor Cardona, existe apenas um tipo de depressão?
Não; há dois grandes tipos.
Existe a depressão endógena, que pode ser padecida por um indivíduo sem nenhum tipo de conflito, com uma vida perfeitamente normal. A origem está predominantemente na constituição da pessoa: os fatores hereditário e bioquímico-cerebral são determinantes. O paciente sofre de inibição psicomotora e do pensamento, tristeza (sintoma central de todas as depressões) etc.
E há um outro tipo de depressão, a reativa (exógena), que gera o abatimento pela perda de um bem, pela ameaça de um mal ou pela incapacidade de assumir a realidade que nos envolve.
Em poucas palavras, o que é a depressão?
Como já disse, o sintoma central da depressão é a tristeza. Sentimento oposto, logicamente, à alegria. Enquanto a alegria é o descanso na posse de um bem, a tristeza é a pena por ver-se privado dele.
A depressão, segundo a opinião generalizada dos psiquiatras, foi a enfermidade por antonomásia do século XX. No século que acabamos de atravessar, a causa da depressão foi a síndrome da insegurança: no trabalho e na família (as rupturas conjugais não afetam apenas os esposos, mas também os filhos), insegurança econômica e, principalmente, insegurança pela perda dos valores que dão sentido à vida.
Essa insegurança gera angústia, que, por sua vez, gera obsessões, fobias, tristeza, depressão... Se Freud, no começo do século passado, denunciava que a repressão sexual era a causa de muitas neuroses, hoje os psiquiatras denunciamos que as causas do grande número de transtornos psíquicos estão na repressão dos valores do espírito. O homem, por natureza, é um ser transcendente. Quando essa dimensão é cortada (não apenas a relação com Deus, mas também com os outros), o homem se desnatura. Chesterton já o dizia: o natural, sem o sobrenatural, se desnatura.
Em seus livros, o senhor costuma falar de quatro modelos antropológicos em que se baseiam as principais concepções psicoterapêuticas. Comecemos, cronologicamente, com Freud. Na sociedade vitoriana em que viveu, Freud viu que a maior parte dos seus pacientes eram sexualmente reprimidos e concluiu que a base dessas depressões neuróticas se encontrava na repressão dos instintos. Sem querer tirar-lhe o mérito por ter descoberto uma realidade importante do ser humano, o seu erro – e o das escolas psicanalíticas que o seguiram – foi tornar absoluta uma verdade parcial, reduzindo o homem a um acumulador de instintos.
A sociedade atual parece seguir as idéias freudianas.
Com efeito, nunca houve tanta desinibição sexual como hoje, e nunca houve tantos transtornos psíquicos. A teoria de Freud sobre a desinibição é uma falácia que leva à amargura, que é uma especificação da tristeza. Na tristeza, a pessoa se consome em sua solidão interna, mas na amargura a insatisfação do ânimo leva a uma atitude hostil e irritada diante de tudo o que a rodeia: a pessoa busca culpados.
Depois de Freud veio Adler...
Assim como a análise de Freud se polarizou numa concepção antropológica puramente instintiva (vontade de prazer), Alfred Adler o fez no âmbito social: vontade de poder. Daí vinham as suas teorias sobre o complexo de inferioridade, a necessidade de predominar, a prepotência. Mas também ele comete o mesmo erro de Freud, a visão unilateral e parcial, tornando absoluto o que é relativo.
A terceira escola é a do suíço Carl Jung...
Ele pensava que a tendência fundamental do ser humano era a vontade de auto-realização, o que teve uma grande importância nos movimentos feministas. A mulher (em parte com razão) rejeita uma sociedade machista, mas às vezes se deixa levar por um afã igualitarista em relação ao homem que reduz ou anula seu valor máximo: a feminilidade, a ternura, a sensibilidade, o seu papel de mãe e esposa. E cai em uma grande contradição, tornando-se machista.
E chegamos à quarta escola, a de Viktor Frankl.
Recolhendo parte da verdade que havia nos seus três predecessores, ele é um dos expoentes atuais da intenção de ver o homem integralmente: um ser livre e responsável, condicionado mas nunca determinado. Não está dominado pelo instinto de prazer nem pela vontade de predominar, mas sim por uma vontade de sentido, ou seja, o desejo de encontrar um significado para a própria vida. É preciso tomar cuidado, entretanto, com o que se considera o sentido da vida, porque se este for tomado, por exemplo, por um nacionalismo extremo, pode levar à criminalidade, alimentando erros tão maiúsculos como os movimentos terroristas, os fundamentalismos islâmicos, os atentados suicidas...
Qual é o perfil dos doentes psíquicos de hoje?
A maior parte dos pacientes que me procuram padecem de depressões exógenas, produzidas por um ambiente social deteriorado e desumanizado. Chegam esgotados por causa das exigências do trabalho e da falta de descanso, ou por causa da crise de sentido da família...
Neste ponto, nem todos os especialistas pensam da mesma forma.
Sim, recordo que num congresso certa psicóloga “progressista” disse que estava demonstrado que os filhos de “quatro pais” são mais maduros que os de “dois pais”, porque tomar consciência de que “o homem que vive com a minha mãe não é o meu pai, mas o homem que vive com a minha mãe” e “a mulher que vive com o meu pai não é a minha mãe, mas a mulher que vive com o meu pai” favorece o jogo de convivência alternativa com quatro adultos, o que, segundo aquela psicóloga, facilita a maturidade. É uma aberração que está causando muitos estragos na sociedade atual.
Que depressões são curadas mais facilmente?
As endógenas (metabólico-cerebrais), quando o tratamento é adequado. As reativas são mais difíceis de curar. Dependem de que o sujeito se deixe tratar e não se enrole no seu próprio eu. Uma frase de Kierkegaard sempre me chamou a atenção: dizia ele que a porta da felicidade se abre para fora, e quem quiser abri-la para dentro acaba por fechá-la hermeticamente. Pois este é um sintoma típico dos nossos dias, o egocentrismo. Atualmente, promovem-se (com a ajuda dos meios de comunicação) o egoísmo, a auto-satisfação e a liberação dos instintos... Tudo isto está provocando o fechamento da porta da felicidade, porque o homem, por natureza, é um ser aberto aos demais.
O senhor está de acordo com o título do famoso livro Mais Platão e Menos Prozac?
Sim, claro... E há outro livro muito bom de Tom Morris, A nova alma do negócio (Ed. Campus; título original If Aristotle Ran General Motors). O filósofo norte-americano diz que muitas pessoas sofrem de doenças nervosas porque se excitam demais com as coisas boas e se deprimem demais com as coisas más. Todos precisamos de uns “amortecedores” psíquicos que nos facilitem o tráfego pelos baques inevitáveis da vida sem trepidações extraordinárias. Quais são esses amortecedores? Tom Morris não fala deles, mas, na minha opinião, são três: a aceitação da realidade, a capacidade de relativizar os problemas e o senso de humor.
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